sábado, 27 de setembro de 2014

O ANJO.


Descalça e suja, a pequena garota ficava horas sentada no parque olhando as pessoas passarem. Nunca dizia uma única palavra. Os transeuntes passavam por ela, mas nenhum, sequer, era capaz de lançar-lhe um simples olhar, ninguém parava, inclusive eu.
Um dia decidi voltar ao parque curiosa para ver se a garotinha ainda estava lá. Exatamente no mesmo lugar onde a vi no dia anterior, lá estava ela empoleirada no alto do banco com o olhar mais triste do mundo. Decidi que hoje não poderia, simplesmente, passar ao largo, preocupada somente com meus afazeres. Ao contrário, me vi caminhando ao encontro dela.
Pelo que sabemos, um parque cheio de pessoas estranhas não é um lugar adequado para as crianças brincarem sozinhas. Quando comecei a me aproximar dela, pude ver que as costas do seu vestido indicavam uma deformidade. Concluí, então, que aquela devia ser a razão pela qual as pessoas passavam e não faziam esforço algum em se importar com ela. Quando cheguei mais perto a jovenzinha lentamente baixou os olhos para evitar meu intenso olhar. Foi quando pude ver o contorno de suas costas mais claramente. Era grotescamente corcunda! Sorri-lhe para mostrar-lhe que tudo estava bem e que queria ajudá-la e conversar com ela. Sentei-me ao seu lado e disse-lhe:
— Olá!
A garota reagiu chocada e balbuciou-me um “oi”, após fixar-se demoradamente nos meus olhos. Sorri para ela que, timidamente, sorriu-me de volta. Conversamos até o anoitecer, quando o parque já estava completamente vazio. Todos tinham ido embora e estávamos  sós. Perguntei-lhe por que estava tão triste. Olhou-me fixamente e disse-me:
— Porque sou diferente!
Imediatamente, retruquei-lhe, sorrindo-lhe:
— Sim, você o é.
A menininha ficou ainda mais triste e confirmou-me:
— Eu sei.
— Você me lembra um anjo, doce e inocente.
Olhou-me de forma graciosa, sorriu-me lentamente, levantou-se e perguntou-me:
— De verdade?
— Sim, querida, você é um pequeno anjo da guarda mandado para proteger todas as pessoas que passam por aqui.
Ela acenou-me com a cabeça e disse-me, sorrindo-me:
— Sim!
Logo em seguida abriu suas asas e, piscando os olhos, falou-me:
— Sou seu anjo da guarda.
Fiquei sem palavras e certa de que estava tendo visões. Ela finalizou:
— Quando deixou de pensar unicamente em você, meu trabalho aqui já tinha sido realizado.
Imediatamente levantei-me e disse-lhe:
— Espere. Por que, então, ninguém mais parou para ajudar um anjo?
Olhou-me com candura e sorriu-me:
— Você foi a única capaz de me ver!
E desapareceu...
Com isso, minha vida mudou para melhor, é claro!
Quando pensar que está completamente só, lembre-se do anjo que está sempre tomando conta de você. O meu estava!

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